Do direito à inclusão digital

O texto de Silveira procura, no seu cerne, expor a necessidade de uma política pública de inclusão digital aliada ao software livre.

Para entendermos a importância do processo de inclusão digital e, assim, percebemos a importância da tese de Silveira, podemos citar algumas consequências positivas que seriam trazidas pelo combate à exclusão digital. A inclusão digital pode ser usada para diminuir as desigualdades através da consagração do direito à comunicação, pode ajudar o governo a sistematizar melhor que país ele governa, pode até contribuir com o combate à pobreza. Enfim. Existem diversos pontos positivos, mas o autor deixa claro que caberia ao Estado a implementação dessa política pública de inclusão digital, com o fornecimento de recursos. Porém, para a execução dessas políticas ser mais eficaz, humana e rápida, o envolvimento de ONG’s, movimentos sociais, comunidades locais e acadêmicas se faz imprescindível.

Essa política pública, como já foi dito no começo, deve estar envolvida com o movimento de software livre. Silveira explica primeiro o que esse software é. O software livre é um programa de computação que possui o código aberto. Além disso, ele é gratuito e pode ser usado e, inclusive, modificado por qualquer um que entenda da linguagem de programação. Depois disso, Silveira explica o porquê do software aberto ter sido escolhido para acompanhar a logística da política pública pensada pelo autor. Em resumo, seria porque, primeiro, sendo gratuito, não há a necessidade de pagar pelo uso. Além disso, a maleabilidade da manutenção do programa iria contribuir com a constante qualidade do produto. Não podemos esquecer do ponto principal: como a maior parte dos recursos financeiros viriam do Estado, o uso de softwares comerciais não seria a principal escolha para o destino dos recursos públicos. Então, livrando-se de um processo burocrático de abertura de edital, da existência de licitação e da cobrança, o Governo pouparia tempo.

Além dessa contextualizando do projeto de inclusão digital, o autor do texto discute outras coisas. Uma delas é a definição de exclusão digital. Para ele, a exclusão digital está vinculada à exclusão ao acesso à internet no computador, visto que ter um computador desplugado do mundo cibernético, é ter um computador com limitações.

O desagradável é perceber que o que ele chama de exclusão digital acontece em grandes índices dentro do mundo. Mais problemática fica a situação quando notamos que a exclusão digital não é apenas uma consequência da pobreza, mas também um catalizador da manutenção da mesma. A luta pela inclusão digital é também, então, uma luta por direitos iguais. Através dela, as pessoas irão interagir, integrar, enfim, participar de novas formas de comportamento e consumo.

A globalização seria o fenômeno que supostamente deveria estar estimulando essa inclusão. Porém, como percebemos, a situação não é totalmente assim, o que não deveria acontecer, pois todos possuem o direito de acesso à comunicação, independente de idade, sexo, gênero e classe social, para poder usufruir do ciberespaço e das vantagens que ele oferece.

*FICHAMENTO DO TEXTO “SOFTWARE LIVRE E INCLUSÃO DIGITAL”, de Sérgio Amadeu Silveira.

Bucci e a cibercultura.

Este fichamento corresponde a um resumo de um texto que utiliza do gênero entrevista para conseguir informações de Eugênio Bucci – jornalista brasileiro – sobre as alterações que são tornadas vigentes a partir do advento da internet.

Podemos separar o texto em dois principais pontos: o da privacidade – ou não privacidade – e o da inclusão digital – ou melhor, da exclusão.

No primeiro ponto, Bucci esmiúça uma das falácias que envolve a web: a democratização das vozes. Parece, em meio aos discursos enamorados pela internet, que ela veio para tornar tudo mais inclusivo. Porém, isso não é, em si, uma total verdade. Para a internet poder potencializar o aspecto da democratização das informações, ela precisa primeira se democratizar. Os número de pessoas que têm acesso à internet é ainda pequeno em muitas partes dos países. Então, ela ainda não tem esse total poder de tornar tudo mais incluso.

No segundo ponto, o autor fala sobre a questão do rastreamento, visto que a tecnologia vem invadindo nossa privacidade, e nós não nos precavemos disso. Históricos de navegação estão sendo gravados, nossas contas de e-mail estão sendo abertas para grandes empresas. Enfim, todos querem saber nossas informações e utilizam a internet para conseguir isso – e conseguem! É interessante perceber que Bucci fala que isso sempre existiu, mas que agora se potencializou por causa da facilidade que a internet possibilitou para esse processo.

Além da discussão envolvendo essas duas temáticas, Bucci disserta coisas muito interessantes sobre as mudanças causadas pela internet no cenário da comunicação. É interessante perceber que o fluxo de informações aumentou, que os usuários estão podendo também ser produtores, assim como ser uma audiência mais participativa, visto que o feedback em relação às notícias é mais rápido e mais acessível de ser exposto. Essas e muitas outras mudanças mostram que a Internet vem alterando as configurações dos meios de comunicação, e que é muito importante o processo de adaptação que esses meios estão sofrendo para atender as novas demandas. Dentro desse espectro, percebemos que o jornalista é  um profissional que precisa se destacar, porque, dispondo de credibilidade perante o público, ele poderá fazer a hierarquização das informações dentro do gigantesco fluxo que acontece dentro da web.

Tomando as últimas palavras de Bucci para finalizar este fichamento, devemos lembrar que a Internet não é um meio de comunicação. A internet é uma conexão que construiu um novo espaço para desenvolver o que chamamos de comunicação.

*FICHAMENTO DO TEXTO “COMUNICAÇÃO DIGITAL” – ENTREVISTA COM EUGÊNIO BUCCI.

Introdução à cibercultura

O termo cibercultura vem sendo usado ao longo das três décadas do último século. O texto, logo no seu começo, tenta expor os principais conceitos que foram perpassados nesse limite de tempo, o que deixa claro que existem vários significados para o que se entende de cibercultura, ou seja, diferente do que pensam, não existe apenas uma: existem várias ciberculturas.

Estas, Nayar deixa claro, não tem como único representante a internet. Obviamente é o maior, mas, surpreendentemente, não é o único. Celulares, tablets, smarthphones e computadores também participam do jogo de valores culturais e, assim, também estão dentro da cibercultura.

Outro ponto que entra desse espectro do “diferente do que pensam” é o da correlação da cibercultura com o mundo físico, “real”. Não sendo possível entender a cultura do ciberespaço sem estudar os fenômenos que acontecem no mundo externo, percebe-se que o virtual e o “real” andam de mãos dadas, diferente do que o senso comum predita. Esses dois conceitos, então, não podem ser afastados e considerados dupla em uma dicotomia reducionista, pois o espaço virtual tem sua dimensão material, assim como o espaço externo tem suas reverberações dentro no plano cibernético.

Dentro dessa discussão de o real é diferente do virtual, uma das partes mais polêmicas é a que envolve a multiplicidades de identidades que podem ser assumidas dentro do ciberespaço. Como uma reconfiguração da extensão física humana, usuários podem se permitir e assumir uma personalidade que não condiz necessariamente com a que ele assume dentro do seu cotidiano físico. A maior preocupação envolvendo isso é como o corpo humano pode ser afetado com essa mudança de personalidade permitida no espaço cibernético, o que não necessariamente pode ser negativo, visto que um aprimoramento na prática mental reverbera para o plano físico.

Dentro do texto também há uma discussão a respeito da democracia digital. Para tratar deste ponto, Nayar ilustra a questão do “e-governance” e sua possibilidade de maior participação e engajamento civil dentro do espectro político e a transparência que este governo assume a partir das potencialidades que o ciberespaço possibilita.

*FICHAMENTO DO DO CAPÍTULO UM DO LIVRO “AN INTRODUCTION TO NEW MEDIA AND CYBERCULTURE”, de Pramod K. Nayar

Cultura Livre

No início dos anos 1990, a propriedade da terra possuía um cariz, digamos, megalomaníaco quando olhado com os olhos contemporâneos de hoje. Sem extensão definida, tudo que estava abaixo da terra privada e acima desta era do dono do lar. Você, então, não comprava somente a casa física. Com ela, vinha, além dos hectares de solo, subsolo e mais “terrenos” verticais, milhas e hectares de céu, nuvem e atmosfera. Tudo muito estranho para a vivência que temos hoje. Estranho porque, depois de centenas de anos da lei da propriedade, percebemos que a legislação vai se ajustando as tecnologias de seu tempo. Para ilustrar, peguemos o caso de novo da propriedade de terra, de céu e de subsolo. Com a chegada dos aviões, houve a pergunta: “quando eu estiver voando, vou ter que pagar, para cada ‘ar’ abaixo de uma casa privada que eu ultrapassar?” Se isso fosse respondido com um sim – e, claramente, com a vivência de hoje, sabemos que foi respondido com um não – estaríamos de cara com um caso em que o interesse privado vence um ganho público óbvio.

Enfim, lei da propriedade, obviamente, foi revogada. Os aviadores podiam flutuar tranquilamente sem pagar, digamos, pedágios. O mais interessante de perceber nessa questão é o que foi afirmado no parágrafo anterior: percebemos que a legislação vai se ajustando as tecnologias de seu tempo. E vivemos tempos de mudanças. Mudanças estas causadas pelas consequências do advento da internet, pois ela vem mudando como a cultura é feita.

Para entendermos isso, temos que refletir sobre dois conceitos: cultura comercial e cultura não comercial. A primeira é aquela produzida para ser vendida. A segunda é aquela que é não regulamentada, que é livremente criada – como exemplo, podemos pegar as cantigas cantadas para as crianças. Com o advento da internet, esses conceitos deslegitimaram fronteiras e acabaram se misturando. Hoje, na internet, a partir do momento em que criamos e compartilhamos coisas, precisamos lidar com a regulamentação legal que estão tentando impor nesse meio.

Isso está acontecendo porque a facilidade de criação e compartilhamento na internet acaba ameaçando as grandes indústrias de conteúdo estabelecidas. Temerosas, as indústrias se refugiam nas leis de protecionismo, que não visa proteger os artistas, mas sim proteger o negócio.

O autor Lessig, no texto “Free Culture”, afirma que tem medo de que uma “guerra mundial” contra a pirataria na internet aconteça e expõe que isso chega ao nível dos extremismos com relação à propriedade intelectual, pois, para o autor, a história da indústria cultural é uma história de pirataria. Para ele, é bom lembrar que a TV à cabo, as indústrias fonográficas e radiofônica tiveram seu berço na pirataria.

O autor ainda argumenta que existem muitos tipos de pirataria, algumas mais prejudiciais que outras. Após isso, Lessig procura enquadrar todos os tipos de compartilhamento não-oficial em quatro categorias. A saber:

CATEGORIA A:   Usuários que baixam conteúdo ao invés de comprá-lo.

CATEGORIA B: Usuários que usam as redes de compartilhamento de arquivos para experimentarem música antes de comprá-las. Isso é uma forma de publicidade direcionada, e que tem grandes chances de sucesso.

CATEGORIA C: Usuário que usam a rede para baixarem produtos que não são mais vendidos ou que não podem ser comprados ou cujos custos da compra fora da Net são muito grandes.

CATEGORIA D: Usuário que usam as redes de compartilhamento de arquivos para terem acesso a conteúdos que não estão sob copyright ou cujo dono do copyright os disponibilizou gratuitamente.

A Categoria B e C são os pontos menos ruins para ambos os lados, pois a B serve como uma forma de publicidade direcionada, e que tem grandes chances de sucesso. Além disso, o usuário ainda não comprou e só irá comprar se gostar. Para conteúdo não vendido, isso ainda é tecnicamente uma violação de copyright, embora já que o dono do copyright não está mais vendendo esse conteúdo, o prejuízo econômico é zero.

Já sobre a Categoria A e D: do ponto de vista legal, apenas o tipo D de compartilhamento é claramente legal. Do ponto de vista econômico, apenas o tipo A de compartilhamento é claramente prejudicial.

A reflexão final que fica com a leitura do texto de Lessing é que a lei deve existir, mas não dentro de um paradigma retrógrado e fechado – como a indústria cultural tem pretendido que ela seja –, e sim adaptada – palavra muito importante quando se fala sobre isso – às novas tecnologias. A lei, então, deve assegurar e proteger tanto o direito dos criadores e suas inovações, quanto buscar um novo olhar para a promoção e distribuição de conteúdo na rede.

*FICHAMENTO DO TEXTO “Cultura Livre”, de Lawrence Lessig.

No culto do amador, os “macacos” é que dirigem o espetáculo?

O autor Andrew Keen, no livro “O Culto do Amador”, atravessa as discussões das atualizações vigentes trazidas pela cibercultura e tenta, assim, desconstruir a perspectiva positiva que foi construída por muitos autores em relação à Web 2.0.

Para começar com sua tese, Keen apresenta a “Teoria dos Macacos Infinitos”, conceito criado por T.H. Huxley. Esta teoria fala que se nós dermos, para vários macacos, diversas máquinas de escrever, dali sairão obras-primas. Essa metáfora serve de exemplo para ele ilustrar sua visão, digamos, apocalíptica sobre a Web 2.0. Para ele, os “macacos” são todos os internautas que mudaram a perspectiva tradicional para uma dinâmica colaborativa, e as “máquinas de escrever” são os computadores e aplicativos que estão à mão de milhões de pessoas.

Esse mar de informações, o qual possui um fluxo imenso, serve de hidratação para o que o autor chama de “floresta de mediocridade”. Na copa dos galhos dela, estão os dito “macacos” que têm liberdade de publicar qualquer coisa na internet. E muitas das publicações nesse ambiente de web 2.0 é, para Keen, simplesmente vazia e só está ali para a autopromoção. A situação se agrava, para o autor, quando, em vez de procurarem informação, as pessoas estão procurando formas de serem a notícia.

Para ele, as redes sociais vieram para intensificar esse quadro narcísico. Com a intenção inicial de suprir a demanda de interação social, a rede social, para o autor, conseguiu ir além. Faz com que essa interação seja, na realidade, de nós com nossos respectivos espelhos narcísicos. Elas estão aí, então, para mostrarmos o que fizemos ontem, o que gostamos de ler, nossas opiniões, o que faremos amanhã, aquela foto feliz. Para Keen, então, algo muito valioso está em jogo: nossos valores morais e culturais.

A situação piora quando o autor percebe que dentro da perspectiva da democratização – vista por Keen como a “grande sedução” – trazida, supostamente, pela Web 2.0 faria com que o amadorismo tomasse o lugar do talento e da experiência, causando desemprego de especializados e a superficialidade da informação. Dito isso, para o autor, então, só temos a perder com a valorização da Web 2.0, que trará nada além de falsas promessas. Para ele, a real consequência da Web 2.0 é “menos cultura, menos notícias confiáveis e um caos de informação inútil”.

Dentro do enraizamento do termo “menos cultura”, estaria o furo gritante, para Keen, da Teoria da Cauda Longa proposta por Cris Anderson, pois o processo perpetrado pela Web 2.0 “achataria” a cultura – agora, sem guias, sem “guardiões” –, o que comprometeria a qualidade do produto, visto que os talentos não iriam jorrar ao léu, como pensa Anderson.

O contraponto realizado por Keen é interessante. Porém, mais interessante ainda é refletirmos se realmente a ode à Web 2.0 é, na realidade, um culto ao amador. E, se sim, os “macacos” é que dirigem este espetáculo?

*FICHAMENTO DO TEXTO “O CULTO DO AMADOR”, de Andrew Keen.

“Senti falta do meu antigo cérebro”

É com esta afirmação que o autor Nicholas Carr finaliza o capítulo 1 do seu texto “The Shallows” e ironiza a situação de como o envolvimento dele com a cibercultura mudou sua forma de se comportar com o mundo. Porém, para entender melhor essa situação, vamos para o começo do texto.

A primeira empreitada ideológica travada por Carr é a de explicar a célebre frase “o meio é a mensagem”. Esta foi dita por Marshall McLuhan, e Carr dá embasamento para ela a partir do texto do McLuhan chamado “Os meios de comunicação como extensões do homem”.  Neste livro, a principal tese do autor é a que afirma que, em longo prazo, o conteúdo de uma mídia é menos importante que ela própria quando nossa análise foca na influência dessa mídia no nosso modo de pensar e/ou de agir. Para Mcluhan, então, o uso dessas novas mídias nos modifica. Isso nem sempre é percebido, pois, segundo McLuhan, as pessoas focam no conteúdo que aquele meio de comunicação traz, e não nas características, digamos, técnicas.

Outro ponto interessante a se perceber é que existe um círculo vicioso da grande maioria das análises. Foi assim com as de rádio, com as da TV e é assim com as da Internet. Dentro deste círculo, a grande perda é da pesquisa em si, pois esta se envereda por um caminho que pode, inocentemente, demarcar o meio de comunicação como apenas um canal de informação, não esmiuçando, assim, quão um meio de comunicação, pensado como suporte, pode influenciar nossas escolhas. Estes não só indicam o que devemos pensar, mas, de forma enérgica, por causa das características intrínsecas do suporte, pode moldar o nosso processo do pensar. Fechamos os olhos para isso porque, segundo Carr, “a implicação, confortável em sua arrogância, é que estamos no controle. A tecnologia é apenas uma ferramenta inerte, até que a usemos, e ociosa de novo quando a deixamos.”.

O autor do texto, inclusive, expõe enunciados sobre como ele está perdendo a concentração e a capacidade de se debruçar muito tempo em uma leitura. Carr atribui isso ao fato de tudo que ele tem feito tem sido a partir do computador, desde simples pesquisas a longas pesquisas, pagamentos de contas a renovação da carteira de motorista. “A Web passou a ser minha mídia predileta”, afirma.

O interessante é perceber que isso não é algo pontual, uma exceção, é a regra. Para isso, Carr constatou, com depoimentos, que não era só com ele. Muitas pessoas viviam cotidianos diferentes se comparados com os que vivenciavam antigamente, mas similares com os das outras pessoas. Consequências estas, diz Carr, causadas pela internet.

O ponto que não encontra equilíbrio dentro das discussões é se estas consequências negativas compensam a facilidade que a tecnologia traz – e tem que trazer, pois o utensílio tecnológico está ali para ser uma benesse ao humano. Esse debate, porém, desenvolve uma discussão que sustenta bons argumentos, mas não sustenta um fim. O foco, segundo a leitura do texto, é que as grandes mudanças tecnológicas marcam todo um processo de socialização do homem, pois entra dentro do cariz da adaptação. E essa adaptação afirma, em si, que há sim uma modificação cognitiva a partir da imersão na cibercultura. Agora precisamos saber em que nível se dá essas transformações e quais são as permanências desta.

*FICHAMENTO DO TEXTO “The Shallows”, de Nicholas Carr

O que a Wikipedia nos ensinou

Quando pensada no passado, a colaboração era vista em pequena escala: uma parceria entre parentes, amigos; sócios em lares, comunidades, no máximo. Esta pequena escala permitia, então, que se formulasse, no imaginário comum, a ideia de que colaboração era sempre uma boa conversa com um bom objetivo gerando boas atitudes. Basicamente, pessoas felizes trabalhando juntas e unidas.

Percebemos, então, que raras são as vezes em que episódios de colaboração acontecem em escalas de massas, pois esse pensamento de “se é horizontal, é alegre e só possível em pequena escala” se dá pela inexistência de exemplos válidos de horizontalidade e colaboração. Talvez, durante muito tempo, e é interessante demarcar isso, os rápidos momentos de ação política foram as únicas atividades que se enquadravam dentro dessa perspectiva colaborativa. Se isso acontecesse mais, talvez, o pensamento de muitos seria “uma catástrofe!”. Como, pois, sair dentro das diretrizes já consagradas do pensamento tradicional aplicado nas “coisas” de grande escala, como uma indústria, para fazer algo que dê certo? Era essa a base da visão reduzida de muitos empreendedores.

Essa pergunta está sendo respondida de um modo tão certeiro e enérgico que a economia, quando vista pelo viés tradicional, está de cabeça para baixo. Quando um magnata iria pensar em disponibilizar, por exemplo, todo o conhecimento que torna sua empresa diferenciada no mercado? E, bom, é isso que acontece atualmente.

As empresas viviam dentro de um parâmetro de funcionamento em que, dentro dele, elas precisavam estar extremamente fechadas para conseguirem dar certo, pois a sabedoria convencional diz que você deve se controlar e proteger seus preciosos recursos e inovações. São propriedades exclusivas, por assim dizer. Isso aumenta principalmente quando entramos dentro do núcleo de propriedade intelectual.

Quando o assunto era a gestão de recursos humanos, saiba, as empresas tinham que contratar as melhores pessoas e, assim, motivá-las, qualificá-las e, principalmente, retê-las. Tudo correto, pensavam, pois a base da competitividade é o capital humano.

Após esse mergulho dentro da perspectiva hierarquizada das antigas grandes empresas, percebemos que dentro da nova super-estrutura vigente hoje é necessário se adaptar, como em todas as mudanças de logística e dinâmica industrial. Agora, dessa vez, é necessário se adaptar para cada vez mais para colaborar. Aqueles que não entendem isso ficam cada vez mais isolados.

Hoje, vivemos dentro de uma abordagem de código aberto. Esta vai além dos limites da organização institucional para buscar as mentes qualificadas a fim de fazer novas descobertas. Isso só é possível com o compartilhamento de propriedade intelectual. Esse compartilhar permitiu que a humanidade explorasse o poder da genialidade e da competência coletivas – que estão muito longe do que Gates e Lanier quiseram desprezar chamando de comunismo.

As pessoas, através do mundo da colaboração, participam da economia como nunca antes. Essa nova participação atingiu ápices que mudaram a maneira como bens e serviços são inventados, produzidos, comercializados e distribuídos globalmente. É esse o novo mundo da wikinomics. “Uma nova arte e ciência da colaboração está emergindo – nós a chamamos de wikinomics”, assim Don Tapscott & Anthony Williams definem wikinomics.

O mais interessante da abordagem da wikinomics é que ela não atenderá apenas a interesses comerciais. Os benefícios sociais são profundos. As redes pensadas dentro da perspectiva wikinomics se mobilizam horizontalmente permitindo realizar muito mais do que uma empresa faria agindo sozinha. Nós convivemos com isso no dia a dia. Como exemplo, podemos pegar a Wikipedia. Quem nunca, amigo leitor, a utilizou como fonte? E saiba, ela está dentro de um sistema de edição conjunta que se autorregula, praticamente.

Observando por esse viés, até parece que a colaboração em massa reduzirá a proporção da economia que está disponível para atividades lucrativas e criação de riquezas – como podemos ver no caso da Wikipedia: esta, online e gratuita, fez com que as enciclopédias escritas, grandes e caras não fossem mais essenciais. Mas isso não quer dizer que todos os setores do comércio irão seguir esse caminho. O novo modelo de colaboração pode trazer possibilidades que liberam o potencial de inovação em uma ampla gama de recursos, visto que ele vai buscá-los dentro e fora da empresa. Claro que isso também depende de uma gerência criativa e bem preparada.

Para facilitar e guiar essa empreitada do mundo da colaboração, o texto aponta quatro ideias que são base para a “nova arte e ciência da wikinomics”. A saber:

1 – Abertura;

2 – Peering;

3 – Compartilhamento;

4 – Ação global.

A abertura diz respeito à permeabilidade das fronteiras em relação às novas ideias e ao capital humano externo. Quando ela ocorre, o desempenho é superior à empresa que depende exclusivamente de seus recursos e capacidades internas.

O peering diz respeito ao novo modelo de inovação em criação de valor. Este modelo repensa a hierarquia empresarial, substituindo-a por uma dinâmica horizontal.

O compartilhamento diz respeito à distribuição de conceitos internos para atrair talentos externos. Esse princípio “wikinômico” vai de encontro com a sabedoria convencional, a qual roga por controle e sigilo dos recursos exclusivos.

A ação global diz respeito a remoção do isolamento para a empresa permanecer globalmente competitiva. Para fazer isso, é preciso não apenas pensar globalmente, mas também agir globalmente.

Depois desse resumo dos princípios “wikinômicos”, percebemos que as empresas que adotam a nova organização colaborativa são muito diferentes das multinacionais hierárquicas fechadas e cheias de segredos que dominaram o século anterior. Mas uma coisa importante para se notar é: a organização “vencedora” continua sendo aquela que transformar melhor o conhecimento humano em aplicações inovadoras e úteis.

O que está diferente é que, hoje, quem consegue melhor fazer isso é quem adota a colaboração. Pelo menos é isso que o mercado tem mostrado.

*FICHAMENTO DO TEXTO “Wikinomics: a arte e a ciência do peering”, de Don Tapscott & Anthony Williams.